-Já está na hora de dizer-lhe a verdade, não é?
-Sim. Por favor. -Ele sorriu levemente e pousou seu olhar novamente sobre a Lua. Contou sua historia desde o inicio e eu ouvi atenta todo o desenrolar da ladainha, desde todo sua insatisfação com nosso estilo de vida até a última de suas recusas a proposta profana do homem de capa negra. Porem depois disso seu olhar pareceu mais distante, como se ele estivesse revivendo cada momento doloroso daquele fatídico dia.
- Era bem cedo quando sai para treinar aquela manhã. Alonguei-me como de costume e quando ia começar ela apareceu, linda como uma miragem, pele branca em couro negro. Ela olhou-me de cima a baixo e sorriu um tanto sinica. "Prepare-se" disse ela. "Para que devo preparar-me?" Perguntei meio tonto. Ela apenas continuou sorrindo quando atacou-me, não consegui conter seu ataque e parei caído no chão, com sua adaga em meu pescoço. "Achei que um jovem tão nobre ofereceria um desafio maior. Será que me enganei, Arashi?" Disse debruçando-se completamente sobre mim. "Posso fazer bem melhor que isso." Respondi girando e tentando prende-la em vão. Nossa luta mais parecia uma brincadeira, corríamos um atrás do outro e derrubavamo-nos no chão, assim permanecemos até que meu pai apareceu. "O que significa isso?!" Berrou ao nos ver. Sorri "Pai, essa é... Qual seu nome mesmo?" Disse ainda rindo, porem a postura dela tinha mudado. "Não se atreva a chegar perto dele! Conheço bem esta bruxa! Saia daqui. Agora." Disse ele sacando a espada. Pus-me a sua frente, também empunhando minha espada "Como ousa?!"Esbravejou. "Deixe. Vou ficar bem." Disse ela retirando-se. "Como ousa estar as voltas com alguém como essa bruxa, e ainda por cima defendê-la contra seu próprio pai?!"Disse ele atónito. "Ela é só uma garota e vou defende-la!" Respondi. Ele acertou-me na face. "Nunca mais ouse defende-la!". Olhei-o sinico e cuspi no chão. "Ou?!". Ele segurou-me pela gola da camisa e jogou-me numa árvore prendendo-me na mesma logo após. "Ou darei-lhe uma lição que nunca esquecerá!" Dito isso ele saiu.
Fui procurá-la depois disto. Quando a encontrei já era quase fim do dia, desculpei-me pelo meu pai e conversamos. Com ela consegui me abrir. Falei sobre todas as minhas frustrações, todos os problemas, não escondi nada, mas no final foi ela quem me surpreendeu. Lembro de suas palavras como se estas estivessem sendo sussurradas em meus ouvidos. "Quando sinto-me assim, queixo-me a Lua, ela sempre foi minha conselheira fiel. Tão distante e brilhante. Sempre em paz consigo mesma, a Lua nunca parece ter problemas, e guarda segredos como ninguém. Muitos se confessam a ela esperando uma resposta que nunca vem, e esse é o maior erro. A Lua é uma ouvinte, seus conselhos são os sussurros silenciosos do vento. E além do mais, mesmo que você não diga a ela. Ela sabe de todos os seus segredos sujos. Ela foi a testemunha todas a vezes que manchei de vermelho as ruas ao luar. Ela chorou quanto fiz poças de sangue nas ruas e ela iluminou meu caminho de volta. Mate sob a Lua e deixe que ela guie-o de volta pra mim." Depois disto as palavras não eram mais necessárias, em silencio me confessei ao luar. Ao voltar pra casa, parei na colina, observei a Lua e chamei-o. Finalmente aceitaria a proposta de Soujirou Takamoyo. Depois disso três meses se passaram, eu e Kara treinávamos na floresta e ao anoitecer Takamoyo vinha instruir-me, afastei-me cada vez mais da família, minhas discussões com meu pai eram cada vez mais frequentes e as conversas com a mãe quase escassas, até que chegou o dia. Não duvidei por um minuto sequer, naquela noite entreguei-me completamente ao luar. Eu não era mais eu, era apenas um assassino. Eu era a morte em forma humana. Matei-os sem sequer falar, sem pensar, sem ver. Apenas manejei a espada e fui embora deixando a casa arder.
Era essa a historia que almejava ouvir, Lane? -Olhei-o, meus olhos nublados por lágrimas que me negava a deixar escapar.
-Kara e Takamoyo. E você. Principalmente você. Vocês foram os responsáveis pela morte de nossos pais! Você! Como pôde?! Eram a sua família também.
-Não! Eles eram a sua família! Nunca foram família pra mim! Kara e Takamoyo foram meus protetores!
-A é?! E onde eles estavam depois que você matou nossos pais?! Takamoyo mando-o para a França isolado e sozinho nesta floresta enquanto dominava o Japão e jogava comigo como seu eu fosse uma peça de xadrez! E Kara! Quem diabos sabe onde ela andou por todo esse tempo! -Gritei levantando-me. Ele também levantou-se.
-Você não consegue entender não é? Minha intenção não foi destruir sua vida, não era nem para ter ficado viva, mas se alguém se salvou estou contente que tenha sido você. Takamoyo cuidou de você e de mim. Ele foi mais pai do que Shirio Arashi poderia um dia ter sonhado em ser.
-Como consegue viver sabendo que matou sua própria família?
-Como consegue viver sabendo que dizimou muitas outras famílias?-Sentei-me estática. Ele estava certo. Nunca senti remorso e nem poderia, não os conhecia, não eram nada pra mim. Nossa família era a mesma coisa pra ele. Desconhecidos, não, pior, Eram um estorvo.
"Sem remorso porque eu ainda me lembro, do sorriso quando você me rasgou em pedaços”

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